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[Relato de parto] Nascimento da Maria - Vanessa Saraiva - Parto natural no SUS


A história daminha gravidez e minha busca pelo parto se assemelha a de tantas outras mulheres que resolveram desafiar o sistema obstétrico vigente no Brasil. Já havia lido sobre doula, parto humanizado, na banheira e domiciliar. Achava lindo, mas muita pompa pra o ato de parir.

Foi quando me vi grávida que realmente passei a entender os preceitos da humanização e comecei a achar vídeos de parto lindo. Entendi que esse momento seria o evento de maior importância na minha vida, muito mais do que o enxoval (vale ressaltar que a primeira vez que vi um Moisés na feira de gestante chorei de emoção pensando na chegada da minha filha) e até mesmo mais do que meu casamento que foi maravilhoso.

Dito isso, cabe ressaltar que fui a um total a cinco obstetras ao longo do meu pré-natal e hoje sei que tive um acompanhamento falho, devido minha busca ter começado pelo caminho errado (plano de saúde). Após levar três não, abro um parêntese para a honestidade desses profissionais em me dizer de suas limitações (meu ultimo não foi dado por um obstetra experiente, de cerca de 70 anos, este me foi especialmente doloroso devido a sinceridade de suas palavras, ele me disse que não faria um parto normal e que nenhum outro obstetra de plano faria, que não era rentável para eles enquanto profissionais cancelarem sua agenda pra atender um único parto) resolvi então buscar outros caminhos e alternativas.

Depois dessa grande decepção percebi que se quisesse mesmo ter meu parto respeitado teria de correr atrás. Neste aspecto, agradeço muito ao Google, pois foi nele que pesquisei e encontrei o ishtar (grupo de apoio a gestante) e minha doula Aline Amorim. A partir desses contatos cheguei a uma profissional humanizada, a quinta obstetra que me avaliava em pleno sétimo mês de gravidez.

E então veio a outra decepção, pois o valor do parto não era condizente com minha renda pessoal, ainda que minha família pudesse me pagar, sentia que não seria justo, todos arcarem com um custo de uma escolha pessoal minha, caso houvesse outra opção.

Então minha doula conversou comigo sobre a opção SUS, a maternidade Maria Amélia Buarque de Holanda, nesta maternidade eu poderia contar (a princípio) com um profissional de acordo com os preceitos da humanização do parto e poderia parir com uma enfermeira obstétrica. Esses preceitos são baseados em evidencias científicas recentes sobre os nascimentos e no respeito à mulher como protagonista de seu parto. Vendo o parto como uma experiência única, recepção de um novo ser, início de uma família, longe de ser apenas um ato obstétrico. Claro que se deve recorrer a toda a tecnologia disponível quando esta se torna necessária ou solicitada pela gestante, porém o processo natural foi selecionado ao longo de milhões de anos para funcionar. Então, temos essa incrível opção de deixar o corpo agir primeiro, experimente se libertar das amarras sociais para curtir seu momento animal, fêmea e mãe. Se não funcionar, toda a tecnologia será bem-vinda e amada por qualquer gestante que vir seu filho em risco.

Dessa forma, ficou decidido que minha primeira opção seria a maternidade Maria Amélia Buarque de Holanda. E caso houvesse algum problema poderíamos contar com nossa obstetra particular.

Tudo na minha gestação foi intenso, desde meus enjoos, que perduraram até o dia do nascimento de Maria, até meu processo de entrada em trabalho de parto. Com 36 semanas eu estava inchada e com constantes contrações de treinamento, tínhamos saído da minha casa, pois esta estava em obras e fui passar uns das em Iguaba (Obrigada Tude e Ericssom) o que gerou muitas piadas de Maria nascer em pleno carnaval em Iguaba.

A partir da 37 semana eu comecei a ter constantes dores de barriga e contrações mais ritmadas. Quando entrei na 38 semana tive meu primeiro alarme falso, uma manhã inteira com contrações de 10 e 10, 5 e 5 e achei que podia ser naquele dia, mas uma noite de sono profunda espaçou minhas contrações.

Minha doula Aline veio para nosso atendimento com 38+2 e conversamos sobre como seria a transferência e os últimos pontos do meu plano de trabalho de parto.

Estávamos morando temporariamente em um apartamento de temporada, tínhamos acabado de retornar de duas semanas relaxantes em Iguaba, porém este ap era na Taquara, sendo assim estava tensa com a transferência até o centro da cidade.

Neste mesmo dia fiz minha mala da maternidade e verifiquei com minha mãe se ela já tinha feito a mala da minha filha, pois as coisas de minha filha ainda estavam na casa da minha mãe devido a obra e eu ainda iria leva-las para a Taquara.

Com 38+3 acordei com uma contração forte, às 7:00 da manhã e me molhando, no mesmo tempo, pensei “meu deus” estou com incontinência. Fui ao banheiro e tive uma nova dor de barriga, e assim toda vez que tinha contração perdia algum líquido, que pensava ser urina. Esse líquido era levemente viscoso, mas não tinha cara de tampão devido à ausência de sangue.

Mantive contato constante com minha doula que havia me visitado no dia anterior (esquecemos de pintar minha barriga owim), e ela me indicou que ficasse de olho nos intervalos das contrações, sua duração e se o líquido mudava de cor.

Passei a manhã na sala curtindo as contrações e me molhando (e não era de água do chuveiro), liguei para minha mãe pensando em ir ao shopping comprar algumas coisas que faltavam e ficar na casa dela, pois meu esposo iria sair para trabalhar. Minhas contrações neste momento eram em intervalos de 10 e 10 e duravam cerca de 30 segundos, incomodavam, mas andar gerava um alívio.

Meu esposo Jefferson ao notar que eu estava iniciando o trabalho de parto ficou tenso e não quis ir trabalhar, muito menos que eu saísse para ir ao shopping.

Conversamos e decidimos que eu não ficaria ali, em plena Taquara aguardando meu tp devido ao transito.

Assim eu decidi voltar para a casa que estava em obras, situada no Grajaú. Minha sogra Hyeres (morávamos todos juntos) ainda morava na casa em obras. Fizemos minha primeira transferência Taquara-Grajaú em meio a contrações doidas de 5 em 5 minutos e fiquei feliz de ter feito nesta fase, pois andar de carro contraindo não é legal, rsrs.

Cheguei no Grajaú por volta das 13 horas. Estava com muita fome e comi arroz carreteiro com feijão tropeiro, rsrs. Minha sogra já me aguardava, junto com nossos três gatinhos e nossa poodle, rsrs. Minha mãe e meu sogro chegaram logo depois, assim evoluiu meu trabalho de parto... Nós 5, nossos bichos e os pedreiros trabalhando do lado de fora. E isso foi fundamental pois eu estava completamente a vontade, essa era minha rotina ao longo de toda gravidez.


Minhas contrações passaram para 2-2 minutos e eu parei de querer ficar falando no wats com a Aline, passei o contato para meu esposo que monitorava também minhas contrações. Enquanto eu andava pelo quarto dava umas reboladas e já sentia muita dor na região da lombar. Por volta das 17:00 conversei com ela e resolvemos que era o momento dela vir.

Por volta das 19:00 ela chega e visualiza aquela cena... Luz acesa, casa em obras todos em um quarto, minha mãe tensa, rsrs... Aline me puxa pro canto e fala comigo que aquilo ali não era clima rsrs. Naquele momento contrações mais longas, eu já gemendo, fui para o chuveiro com a Aline e Jefferson. Apagaram a luz e em contato com a água quente (que eu já havia tentado antes mas não tinha gostado) eu finalmente me concentrei no meu trabalho de parto. Foquei nas minhas dores, no que meu corpo dizia. Finalmente eu percebi que logo Maria nasceria, pois até então eu ainda achava que poderia ser alarme falso.

Meu comportamento mudou, as dores se tornaram intensas, eu já não respondia muita coisa, não fazia ideia de tempo e os gritos ficaram mais grossos profundos, contrações longas. Decidiram então que era a hora da transferência.

Cerca de 20:30 nos encaminhamos pro carro, eu coloquei o vestido que tinha separado, minha fralda para conter meus vazamentos, peguei meu plano de parto e fomos. A transferência com certeza é um momento tenso e chato, foi o primeiro momento que eu fiquei com alguma insegurança e medo. A posição no carro era horrível eu gritava, apertava Aline rsrs... Meu esposo dirigindo, minha sogra tentando manter a calma e minha mãe visivelmente tensa.

Quando estacionamos e eu vislumbrei a maternidade comecei a chorar, abracei o Jefferson, senti o medo de quem não sabe o que esperar... Só pedi que ele estivesse comigo e zelasse por mim não me deixando sozinha.

Cheguei na admissão tentando conter meus gritos, mesmo a Aline dizendo que era pra eu me expressar a vontade. A Admissão lotada, percebi que as pessoas me olhavam, aquilo me incomodou um pouco... Então resolvi mergulhar em mim de novo, pensei o que tiver de ser será, a partir daqui só posso fazer o meu e acreditar que tudo dará certo (vale ressaltar que sempre achei que meu parto seria ótimo, sempre mantive meu otimismo, mesmo lendo relatos negativos a fim de me preparar para possíveis violências).

Entrei eu e marido na sala de admissão a enfermeira foi super agradável comigo, disse que precisava fazer um toque, uma contração começou enquanto eu deitava e somente gritei a ela que não fizesse naquele momento. Ela me tranquilizou e aguardou a contração passar, fez o toque e pediu para tocar novamente durante a contração para verificar algum detalhe.

Estava com 4 pra cinco com Maria baixa, centralizada, bolsa integra, fui transferida direto para a sala de parto enquanto marido e doula faziam um cadastro para entrar no hospital. Ali sozinha me armei novamente caso algo ocorresse. Porém ao dar entrada na sala de parto sou recebida por uma enfermeira obstétrica que me pergunta se tenho acompanhante, alguém a responde que tenho acompanhante e doula. Ela confirma comigo, pergunta quem é a doula, digo o nome da Aline e ela diz que já tinha ouvido falar (Aline famosa, rs). Esta enfermeira de nome Tamara me diz que gosta muito de trabalhar com doulas e eu fico mais tranquila. Chega o Jefferson e Tamara me pede para fazer um novo toque, para me avaliar para a médica. Tenho 4-5 de dilatação, com bebê baixo, contrações longas e muito doloridas. Eu não consigo ficar parada ando feito louca e começo a sangrar. Aline chega, chega também a enfermeira Isis que se apresenta. Tamara avalia os batimentos da Maria, Jefferson me segura, pois eu estava muito louca andando pela sala de parto e gritando alto. Batimentos ok, eu já sabia, pois senti Maria se mexer o tp inteiro. Chega também a médica, faz perguntas que Jefferson e Aline me ajudam a responder. Neste momento descobrimos que eu não tinha exame de sangue de terceiro trimestre, então tenho que coletar sangue em pleno tp.

Passado esse momento, Aline apaga as luzes e me encaminha para o chuveiro. As dores são insuportáveis, eu oro pedindo a meus guias e minhas antepassadas para me ajudar. Digo milhares de vezes não, não vou aguentar pois estou muito cansada. E estava mesmo, já deveria ser 22 ou 23 horas e eu estava basicamente de pé desde a tarde, minha principal lembrança do tp foi o cansaço e dor lombar. Deito-me e tiro um cochilo de 10 segundos que me revigora, tudo que consigo pensar é que se tivesse só 10 minutos para descansar seria uma nova mulher em tp.

Chega então uma hora que penso que vou morrer, Falava isso o tempo todo pro Jefferson e para Aline que me diziam palavras de carinho e amor. Penso milhares de vezes que ainda falta muito e eu não iria aguentar.

A dor então muda pra uma dor mais intensa eu saio de mim ainda mais começo a urrar e agachar, mas a dor era muito forte. Eu penso, não pode ser o expulsivo, o expulsivo não dói, eu li muitos relatos dizendo que não doía, mas pra mim doeu bastante. Realmente o expulsivo me tirou do ar, não tinha posição que eu conseguisse ficar, não conseguia falar nada... Tentei chuveiro, bolsa de água quente, banho... Mas nada funcionava só andar me aliviava e agachar na contração.

Nesse momento as enfermeiras perguntam pelo local que iria parir, pois a pediatria queria montar um campo (aff), ainda escuto falarem que por elas poderia ser em qualquer local mas a pediatra gostaria de um local. Neste momento eu observo que tem um grande número de pessoas na sala, mas resolvo ignorar. A enfermeira então agacha junto comigo na contração e diz que Maria coroou, pergunta se quero tocar e sentir seu cabelo. Eu então toco e meio que relembro que estou parindo (sim eu até tinha me esquecido) e Aline sugere a banqueta para que eu pudesse ficar mais confortável e descansar. Neste momento tive um intervalo maior na contração e penso que sim esta no final e minha filha vai nascer, que eu havia conseguido.


Eu sento na banqueta, Jefferson atrás de mim, as enfermeiras na frente. Aline velando por nós e gravando o vídeo mais atrás. Vem um puxo longo eu faço força e sinto passar a cabeça, logo em seguida sinto um novo aumento da pressão e sinto passar o resto do corpinho dela, nasce Maria às 23:47 pm do dia 26 de fevereiro de 2015.

E vem o momento mais lindo emocionante e esperado, ver minha filha. Linda, pequena já chorando, eu estava tão nervosa que me tremia toda. Era Maria, que me chutava todo o dia, por quem enjoei até o nascimento. Ela vem toda branquinha de vernix, pequenina e delicada. As enfermeiras ampararam e já deram para mim e para o Jefferson. Ela chorou muito nossa, eu fiquei ali admirando nossa cria, dizendo palavras de carinho. E então, perguntam do cordão, se já poderia cortar visto que havia parado de pulsar. Maria até então não havia mamado, apenas se acalmado um pouco no meu colo.

Jefferson que cortou o cordão dela e então ele seguiu para a pesagem que é feita na própria sala. Maria não sofreu nenhuma intervenção, seu índice APGAR foi 9 e 9. Jefferson assinou os termos para que não fosse administrada vacina e nem nenhum outro procedimento. Eu sentada na banqueta com Aline me segurando só lembro-me de ouvir o chorinho de Maria ao longe, meu coração dá uma leve apertada. Ainda bem que não passou por mais nada, pois acabava de chegar ao mundo e nós desejávamos que (visto que estava bem) ela tivesse esse momento o mais leve possível.

A expulsão da placenta me foi particularmente chata, logo após Maria nascer voltaram umas cólicas e uma dor na lombar. Resolvi voltar a andar p ver como ficaria, caminhei um pouco, mas estava muito desconfortável. Finalmente me deitei em litotomia (aew médicos tradicionais). Aline me trouxe Maria e a colocou para mamar, de cara pegou muito bem o seio foi lindo lindo esse momento. Então as cólicas aumentaram e eu reclamei com a Aline. Mas ela me lembrou que essa dor era normal da expulsão da placenta.

A enfermeira voltou e me analisou, tive três lacerações, duas de primeiro grau e uma de segundo na região do períneo. Então me chega o momento mais tenso, levar os pontos rsrs. Tomei os pontos e fui levada para esperar pelo meu quarto. Aline ficou mais um tempo comigo até que fomos transferidos eu Jefferson e Maria (que dormia placidamente) para o quarto. Destaco que Maria permaneceu sempre comigo S2.


Gratidão eterna a mim por ter me permitido viver essa experiência, o parto natural te possibilita se conhecer e viver de forma lucida todo o processo do trabalho de parto. Realmente sinto que quem fez meu parto fui eu, eu fiz escolhas desde a gravidez, sabia de suas consequências. No momento que entrei em tp conhecia os sinais, realmente é só deixar o corpo agir. Fui totalmente irracional e visceral ao longo do meu tp e com certeza foi devido a esse mergulho que entrei na MMA com 4 de dilatação e em duas horas Maria já estava comigo.

Outra pessoa fundamental foi meu esposo Jefferson, você pariu comigo! Obrigada pelo companheirismo, amor, carinho, meu porto seguro durante o parto. Seu papel foi fundamental para que nossa filha nascesse tão lindamente. Sentir seu abraço em meio aquelas dores me dava segurança e me faziam ter certeza do homem incrível com quem me casei, te amo.

À Aline por ter me dado coragem para a opção do SUS, quando falei com ela desesperada do preço do parto pela opção particular, pelo amparo antes, durante e após o parto. Pela primeira mamada da minha filha, onde eu estava desconfortável e você foi fundamental para que esta ocorresse. Pelo carinho comigo e pelas gravações, meu registro eterno desse momento lindo!! Agradecendo também ao Ishtar pelos encontros que me proporcionaram tranquilidade e ao grupo pessoal da Aline pelo carinho e compartilhamento de experiências...

À minha família, pai, mãe, padrasto, irmã, sogro e sogra. Agradeço a meu pai pelo apoio mesmo sem entender muito desse mundo da humanização, à minha irmã que foi comigo em uma reunião do Ishtar e tudo, a minha mãe que mesmo diante de todos os medos devido ao meu nascimento, em um pn traumático, me respeitou, ao meu padrasto por toda presteza em levar minha mãe até minha casa e ainda ficar lá comigo durante parte do tp. Ao meu sogro Neca que acreditou em mim desde o início e foi em vão buscar minha banheira (que não usei rs) e a minha querida sogra Dinei por ter me apoiado desde o início, na escolha da via de parto, pelo compartilhamento do ódio mortal aos obstetras que me disseram não (S2), por ouvir minha lamúrias durante meus enjoos sem fim e pela calma fundamental ao longo do meu tp.

Por ultimo agradeço aos deuses pela minha Maria, aproveitando para agradecê-la também. Você me completou como pessoa, me fez conhecer o imensurável da dor, do prazer e do amor que eu sou capaz de viver. Obrigada minha filha por estas oportunidades tão lindas, te amo imensuravelmente!!!


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