[Relato de Parto] Nascimento da Maria Cecília - Gabriela Oliveira - Parto domiciliar planejado


Não sou de poucas palavras, e com o relato do nascimento da Maria não seria diferente, rs. Ficou enorme! Mas não ia conseguir ir direto ao parto sem mencionar o caminho percorrido.

O caminho


01 de novembro de 2014, após 10 meses de tentativa, o tão sonhado POSITIVO. As duas listrinhas, o exame de sangue, os abraços e choros dos familiares e amigos próximos, que esperavam por essa notícia tanto quanto agente, tornaram esse dia um dia inesquecível e muito cheio de amor.

Tivemos um início de gestação complicado, em vários aspectos. Além de, todos os sintomas que me fizeram perder 4kg e os sangramentos que faziam meu coração vir na boca, era uma gestação inicialmente gemelar (parecia mesmo um sonho, dois bebês de uma vez!), com o não desenvolvimento de um dos embriões (a dor da perda, demorou muito para passar, foi sendo elaborada a cada mês com o crescimento saudável da nossa guerrerinha que ficou).

Nosso pré natal havia iniciado com uma médica especialista em gestação gemelar e de alto risco, portanto desde a primeira consulta quando perguntei da possibilidade de ter meus bebês de forma natural, ela disse que só fazia cesárea e parto normal de gêmeos era muito arriscado. Na época uma amiga (obrigada Taís!), me disse para eu procurar uma doula e correr atrás do meu parto, porque era possível sim parir gêmeos. Eu guardei aquela informação, mas havia gostado da médica fofinha do plano e planejava negociar com ela a possibilidade de pelo menos eu entrar em trabalho de parto...

Com a perda de um dos bebês, não precisávamos mais de um pré natal de alto risco (nunca precisamos, na verdade, maaaas foi assim que me orientaram no plano de saúde), e eu poderia então parir... O que eu não sabia é que ouviria tantos "nãos", que iria pular de médico em médico até entender que pelo plano de saúde só iria conseguir no máximo um parto normal com pacote de intervenções completo (o que estava longe do que eu desejava para mim e para minha filha) ou uma cesárea sem real indicação clínica. Cheguei a ser chamada de chiita abraçadora de árvore e ouvir frases do tipo " você não será mais mãe se sentir dor". Sério! Foram médicos mesmo que me falaram essas frases simpáticas (entre outras tantas do mesmo nível), ao serem questionados, por mim, do porque eu teria que ter um parto normal com intervenção se minha gravidez fosse saudável (como mais de 80% das gestações serão).


Foi depois de todos esses "nãos", com mais ou menos 11 semanas de gestação que lembrei do conselho da minha amiga sobre ter uma doula. Entrei em contato com a doula que ela havia me indicado, Aline Amorim, que respondeu meu in box e depois meu email prontamente, marcamos um encontro em um café, e foi amor a primeira vista. Cheguei com uma folha de caderno toda escrita com meus planos para parir. E, de cara, sem nem me conhecer, de forma super tranqüila e segura, Aline foi " riscando meus planos ", "puxando meu tapete", e deixando claro que o caminho até o tão sonhado parto natural e respeitoso não seria nada fácil. Naquele momento ela havia se tornado a minha doula, e poucos dias depois assinamos o contrato e acertamos os detalhes burocráticos.

Semanas se passaram, e a cada dia eu e o meu marido liamos algo novo sobre nascimento com respeito, sobre medicina baseada em evidências e sobre como a obstetrícia no Brasil está equivocada. A essa altura, já sabíamos que não podíamos contar com os médicos do plano para ter nossa bebê de forma natural, mas continuamos o pré natal com a go fofinha que me chamou de chiita, até encontrarmos uma go humanizada (humanizado aqui é no sentido de respeitar a natureza, o corpo da mulher, o tempo do bebê e a fisiologia do parto, sem realizar intervenções desnecessárias e nem cirurgias eletivas por conveniência).

Com 17 semanas fui a minha primeira consulta humanizada. Nossa! Eu era gente! Minha médica me olhava nos olhos, me ouvia, conversava comigo sobre parto, sobre a vida, deixava o sonar no meu ventre por minutos, se deliciando com o som do coração da minha neném, tudo isso em quase 2h de consulta. Eu não tinha dúvidas era aquele calor humano que eu queria passar para minha filha.

Com 24 semanas fui a primeira consulta da segunda go humanizada que me acompanhou. A primeira era ótima. Mas a essa altura, depois de toda leitura e das trocas nos grupos de apoio e com a minha doula, eu só tinha uma certeza: parir era totalmente natural e fisiológico. Portanto, eu, Gabriela, não via nenhuma necessidade de sair da minha casa e ir para um hospital para parir, a menos que fosse realmente necessário. Dentro de mim a escolha já havia sido feita, eu queria um parto domiciliar planejado. Com toda segurança que um parto nesse formato pode oferecer para mãe e bebê. Mas, isso ainda não era uma opção para o meu marido. Então, a mudança para uma segunda go humanizada que era back up de parto domiciliar fazia parte do processo necessário de empoderamento do marido. As consultas com a Dra. Ana Fialho eram como aulas de fisiologia de parto e humanização do nascimento. Sem contar o cuidado comigo e com a minha filha.


Com 35 semanas, após muita leitura, aprendizado nas consultas com a go, trocas nos grupos de apoio e conversas com a doula, a decisão final: nossa filha nascerá em casa! Será um parto domiciliar planejado com toda segurança que mãe e bebê precisam nesse momento tão especial. Eu não cabia em mim de tanta alegria. Havia feito um pré natal de qualidade, tinha certeza que minha gestação era de risco habitual e considerava a minha casa o lugar mais seguro e propício para que minha filha nascesse de forma totalmente natural, no tempo dela, sendo respeitada e acolhida nesse momento tão grandioso que o nascimento. Três dias depois da decisão do parto domiciliar, tivemos nossa primeira consulta com a Enfermeira Obstétrica de nossa escolha, Marcela Pereira, no aconchego da nossa casa. Acertamos os detalhes, recebemos uma lista de itens que precisaríamos ter e casa. E, pronto! Estava tudo certo, era só esperar o dia que Maria Cecília iria querer chegar.

O parto

16 de junho de 2015, 00:34h, 38 semanas exatas e... Minha primeira sequência de contração real. Demorei para entender que dor era aquela, que era intensa por alguns segundos, sumia por alguns minutos e ressurgia de novo. Fiquei ali, no quentinho da minha cama, sentindo meu corpo e assimilando que meu útero estava contraindo e aquele movimento era o esperado para minha filha nascer. As contrações duraram cerca de 3h e desapareceram. Dormi por volta de 4h da manhã e acordei as 8h. Não tive condições de ir a aula da faculdade naquela manhã, estava mexida emocionalmente e com fortes cólicas. Assim que acordei avisei a doula e a enfermeira o ocorrido da madrugada. As duas me orientaram viver a vida, que possivelmente aquilo seria os pródromos e o tp ainda poderia demorar semanas para engrenar. Fiquei um pouco decepcionada e aliviada, minha vida estava tão corrida, que eu ainda não tinha nada pronto para a chegada da minha filha, nenhuma roupinha lavada ou passada. Decidi então, nesse dia, entrar de licença na faculdade e nos estágios e me conectar a minha filha. Naquela madrugada minha ficha caiu que ela poderia nascer a qualquer hora (ou não)...

Duas semanas se passaram, e nada do tp engrenar. Eu coloquei na minha cabeça que ela nasceria na hora que fosse a melhor para ela e aproveitei ao máximo cada dia das minhas "férias", mesmo com as dores indo e voltando. Fui a encontros do grupo de apoio, visitei amigos, caminhei ao ar livre, fiz depilação completa, fui ao chá de bênção do grupo da minha doula para as grávidas a termo, fiz ensaio de fotos da barriga, fiz lembrancinha de nascimento, jantar de despedida da barriga aqui em casa e na casa de amigos.

Até que, 02 de julho de 2015, aproximadamente as 3h da manhã, com 40 semanas e 2 dias, acordo sentindo um líquido quente escorrer pelas minhas pernas. Não era possível! Não podia ser a bolsa! Não me preparei para aquilo. Esperava que as dores fossem aumentar e o tp engrenar... Foi então que comecei a entender uma frase que tanto ouvi na gravidez, da minha doula e de mulheres que já haviam parido: "parir é perder o controle". Sim, aquele líquido era a minha bolsa, e era daquele jeito que minha filha queria nascer, rompendo a bolsa fora do trabalho de parto. Acordei o marido para olhar a cor do líquido. Estava transparente (UFA! Mesmo com toda informação de que mesmo com mecônio o parto pode acontecer natural, saber que o líquido está descendo transparente é um alívio!). Avisei a doula, que me fez algumas perguntas e me deu orientações que eu não lembro quais foram, porque estava bem nervosa na hora. E fui para sala. Sentei no sofá, enquanto marido ficava de um lado para o outro arrumando a casa com os olhos arregalados. Coloquei para rolar um DVD de retrospectiva da gravidez que ganhei de presente de uma super amiga (obrigada Nanda!), no dia que completei 38 semanas. Chorei muito com o vídeo. Era uma coletânea de fotos de toda a gestação, e um filme passou na minha cabeça. Rezei. Agradeci. E pedi que tudo corresse bem e que eu fosse capaz de ficar tranqüila e deixar tudo fluir. Nessa hora uma sequência de contração começou e mais líquido saiu. Dessa vez o líquido era mais espesso e de cor amarelada. Liguei para enfermeira. Ela me disse para ficar calma, tentar dormir, que estaria lá em casa pela manhã, como havíamos combinado no dia anterior. Obviamente, eu não dormi. Até tentei, mas não consegui. Marido foi trabalhar, para ninguém desconfiar de nada (o combinado era não avisar ninguém quando eu entrasse em tp, só quando a neném nascesse). Por volta de umas 9h a Marcela chegou, escutou os batimentos da neném, estava tudo ok. Conversamos um pouco, falamos sobre protocolos de bolsa rota, que basicamente consistia em se eu não tivesse nenhum sinal de infecção poderíamos esperar quanto tempo fosse preciso para o tp engrenar, sem limites de horas ou dias. Fiquei tranqüila, e certa de que daquele dia não passava (intuição de mãe, RS). Nos despedimos. E eu brinquei, "até mais tarde!".

O dia correu tranquilo. Fiz encomenda de lanchinhos para o tp com uma amiga querida (um salve para o Delícias Maciel), que além de me trazer comida boa em um tempo recorde, ainda trouxe um abraço e boas energias. Fui a Madureira (bairro comercial próximo a minha casa) tentar comprar um abajur para o tp e revelar fotos. Comi (abessa). Conversei. Entrei nas redes socias pelo celular. Tudo normal. De vez em quando ia ao banheiro trocar o absorvente e tinha muita secreção, tinha sangue, tinha muco. E cada nova secreção tirava foto e mandava para doula e para enfermeira. Elas respondiam positivamente e a vida seguia. Ter uma equipe de confiança faz toda diferença. Foram muitas horas de bolsa rota (26 no total), e em nenhum momento eu tive "medo" ou insegurança. Pois, sabia que a qualquer sinal de "perigo" minha equipe me sinalizaria e tínhamos planos b,c e d para dar conta de alguma intercorrência.

Por volta de 17h, quando estava voltando de Madureira (sem o abajur, RS), as contrações deram um intensificada. Marido começou a contar, no carro, e estavam de 3 em 3 min. Eram fortes e quando vinham eu me segurava no apoio de mão do carro. Cheguei em casa e achei que aquilo era um sinal, avisei a doula, que me orientou tomar um banho quente e aguardar a menina que iria fazer minha unha. Tomei o tal banho, e... Droga as contrações perderam o ritmo. As 18h a Vanessa Pangaio chegou para fazer minha unha. Foi engraçado e relaxante ao mesmo tempo, fazer a unha com contrações fortes e líquido amniótico escorrendo solto. Vez ou outra precisava dar uma pausa para sentir minha dor ou trocar o absorvente. Sempre me aproveitando da Vanessa, que tambem é doula, para fazer uma pergunta ou mostrar uma secreção.

As 21h Vanessa foi embora, marido dormia, enfermeira me mandou mensagem dizendo que ia dormir e qualquer coisa eu ligasse para ela, e a doula orientou que eu tomasse banho quente e fosse dormir (a essa altura, não aguentava mais tomar banho e estava ficando bem impaciente).

Por volta de 21:30h, depois de tomar o centésimo banho quente do dia, decidi que iria armar uma cama no chão do quarto da Maria Cecília (onde eu queria parir) e tentar dormir lá, para vê se o ambiente ajudava o tp a engrenar. Antes de dormir, acendi uma vela, um incenso e fiz uma oração bem demorada aos pés da imagem de NSA. Senhora do Bom Parto que até hoje faz parte da decoração do quarto.

Ao fim da oração, me deitei na cama improvisada e uma sequência forte de contrações começou. Me lembro que marido veio fazer massagem, e eu não quis, pedi uma bolsa de água quente, para por na lombar que estava bem dolorida. Ele trouxe a bolsa, colocou embaixo de mim (eu só conseguia ficar reta, deitada de barriga para cima) e sentou em um banco na porta do quarto para contar as contrações. Logo assim que ele sentou, minha doula ligou para o celular dele (o meu já estava abandonado mo banheiro desde o banho) e pediu para falar comigo. Eu já não falava frases completas, respondia de forma monossilábica e gemia quando vinha a dor. Ela contou a duração do gemido e me disse que as contrações duravam só 35 segundos. Portanto, poderia engrenar ou não. Eu queria dizer a ela que eu sabia que ia engrenar (hahaha a louca da bola de cristal), mas respondi só "anham". E ela me disse para beber algo relaxante e tentar dormir. Marido saiu para comprar vinho e eu fiquei sozinha por algum tempo. A essa altura já não sabia mais, ao certo, que horas eram e em quanto tempo as coisas aconteciam. Só sei que ele voltou, com um vinho bem pé de chinelo, que foi o único que achou, e eu achei super saboroso.

Com uma caneca de vinho na mão e a play list escolhida para o parto no home, eu comecei de verdade a viagem que eu tanto sonhei para dentro de mim. Corpo e mente em total conexão com a minha filha, que queria nascer e precisava que eu me desligasse e deixasse a natureza fluir. A pedido da doula, o marido precisava monitorar as contrações por 1h. E durante uma hora, ficamos ali, trabalhando em equipe, nós três. Eu explorei alguns lugares da casa e alguns movimentos. Sentia vontade de caminhar, apesar do cansaço. Em algum momento, durante essa uma hora, o marido me convenceu a deitar um pouco com ele. Era a última vez que deitariamos na nossa cama, só nós dois, com nossa bebê ainda na barriga. Ficamos ali por alguns minutos, até que a 1 hora de monitoramento acabou e eu corri para o banheiro. Algumas contrações pareciam muito com vontade de ir ao banheiro e algumas eram mesmo. Eu já não conseguia ficar de calcinha, nem de absorvente, e joguei os dois longe. Me lembro que nessa hora, marido disse que a doula perguntou se eu estava chamando por ela. E eu respondi: "Tá sério! Tô ficando muito louca!". Sentia muita vontade de andar, tanto nas contrações, quanto nos intervalos. Minha casa é pequena, e cheguei a pensar em sair pela rua andando, mas não conseguia dizer isso para o marido, não conseguia dizer praticamente nada. No meio da minhas andanças de um lado para o outro, senti vontade de vomitar. E acho que o marido foi abrir para a doula nessa hora, porque quando terminei de vomitar e virei, ela estava na porta do banheiro. Que alívio! Foi muito bom ver aquele rostinho que tanto me ajudou, me orientou e me emponderou ao longo da gestação. Queria dizer muita coisa para ela, queria contar como eu estava me sentindo, como estava sendo bom e intenso. Mas, só consegui sorrir e fazer um carinho no braço dela. Teve mais um tempo de andança. Mas, agora, quando a contração vinha ia para perto da Aline, queria sentir a contração perto dela, olhando para ela. Me lembro que ela colocava a mão na minha barriga contraindo, e era bom e acolhedor. Em uma dessas vezes que ela colocou a mão, senti novamente vontade de vomitar e corri para o banheiro. Junto com o vômito, descia um sangue muito vivo do meu colo, me assustei e gritei a Aline. E só de ouvir ela dizer que aquele sangue era normal e esperado, minha tranquilidade volta. Depois de perder todo aquele sangue, senti vontade de ir para o chuveiro, minhas costas doiam e me sentia cansada. Tirei a blusa (eu ainda não sabia, mas não colocaria mais a blusa e passaria todo o restante do meu tp totalmente sem roupa, livre e entregue) e liguei o chuveiro bem quente. Alguém apagou a luz e acendeu uma vela. O ambiente ficou perfeito, e por ali eu fiquei um bom tempo. Sentia vontade de sentar, mas não conseguia. Quando tentava a sensação era de estar sendo partida no meio.

Depois de tentar sentar três vezes, percebi que meu corpo queria ficar reto, tanto fazia se era em pé ou deitado. Então, abandonei o chuveiro, passei a mão em um roupão, vesti e fui para minha cama. Sim, eu passei boa parte do meu tp ativo deitada. Nunca pensei que escolheria essa posição, mas era a que meu corpo queria e pouco importava o que eu tinha idealizado ao longo da gestação. Estava com a cabeça deitada no colo do marido e segurando a mão da doula. Aquilo era a perfeição. Doía muuuuito. Eu gemia bem alto e me contorcia a cada contração. Mas, eu tinha ao meu lado as duas pessoas que percorreram comigo o longo caminho de informação e empoderamento até ali. E eu estava feliz, radiante, aproveitando ao máximo e o mais entregue que eu poderia.

Enquanto eu estava ali, vivenciando ativamente o nascimento da minha filha que se aproximava, todos da equipe que faltavam, chegaram. Eu e minha filha estávamos devidamente assistidas, seguras e sendo respeitadas ao máximo.


Por volta de 4h da manhã (essa lembrança não é minha, marido que disse que foi essa hora), a doula me pergunta se eu queria ir para a banheira, que já estava armada e cheia no quarto da Maria, do jeitinho que eu havia planejado. Eu duvidei que tivesse forças para me levantar e caminhar até o quarto ao lado, mas tive. Aline me ajudou, me emprestando o seu corpo, para que eu pudesse me apoiar e seguimos. No meio do caminho tive meu primeiro puxo e tive a certeza que ia parir ali em pé mesmo. Mas, era só o início do meu expulsivo.

Já na banheira, demorei um pouco para achar uma posição. E quando achei, foi muito relaxante. A água não estava tão quente quanto eu gostaria, me lembro de dizer que queria mais quente e toooda a equipe se mobilizar para esquentar água no fogão e jogar na banheira durante todo tempo que estive nela.

Minha consciência aos poucos foi retornando e as contrações tinham um intervalo de tempo maior do que na fase anterior. Me lembro de ficar preocupada com isso, de pensar que o tp podia estar "desandando" e de perguntar várias vezes para a Marcela se estava tudo bem. As respostas eram sempre muito tranqüilas e em tom de sussurro. Todos sussuravam ou não falavam, porque eu não ouvia ninguém. Não tinha luz, não tinha barulho (Só os meus urros e a música baixinha da play list), não tinha ar condicionado gelado. Tinha dor, tinha ardência. Arde muito. Uma ardência e uma dor que não podem ser comparadas a nada no mundo, são únicas. São transformadoras.


Várias vezes coloquei a mão no meu canal vaginal e senti sua cabecinha, que na verdade era a testa, porque ela nasceu em OS (barriga para cima ao invés do dorso) e defletida (nasceu de testa ao invés de com a parte de trás da cabeça). Posição que me renderia uma cirurgia cesariana desnecessária, se estivesse sendo acompanhada por uma equipe não humanizada (no caso, não baseada em informações por evidências científicas), simplesmente por não ser a posição "padrão" que os bebês escolhem para nascer.

Até que... sem que ninguém "mandasse", apenas seguindo meu corpo, fiz uma força mais longa, senti a ardência crescer, meu mundo girar (como se o universo estivesse todo canalizando forças para o meu ventre) e saiu a cabeça, só a cabeça. Eu sabia que parte da minha filha estava no mundo, que tínhamos feito isso juntas, mas não conseguia ver e nem tocar. Só sentia. E então, mas um vontade de fazer muita força, e sai metade do corpinho!!! Agora, eu via e tocava nela. Era lindo demais, inexplicável demais. Eu a via, em partes. Os olhos estavam abertos e me olhavam, olhavam a vida. Os bracinhos mexiam sem parar. Mas, eu não podia puxar. Tinha que esperar ela sai toda. Tinha que esperar, respeitar, como fiz durante toda a gestação.


E, as 6:49 da manhã do dia 03 de julho de 2015, sinto a última contração, a mais esperada de todas e... Ploft! Minha filha nasceu!!! A segurei firme e a tirei de baixo d'agua. Não conseguia acreditar no que via. Era ela. A minha Maria Cecília, bem ali na minha frente. Nos meus braços. Demorei alguns segundos para acreditar e enfim, abraça la. Chorei. Agradeci. Renasci. Tudo isso com o marido de um lado, me emprestando suas mãos para que eu pudesse viver cada contração. A doula de outro, com aquele sorriso lindo que me lembrava o quanto aquele momento era único, enquanto eu dizia que aquilo doía muito (ou abessa, ou para caralho. Não sei ao certo que expressão usei). A enfermeira e a sua assistente, Paola Dufre, na minha frente, escutando os batimentos, me ajudando a aparar minha filha, aquecendo as fraldinhas que aqueceram ela assim que saiu do útero e sendo exemplo de respeito e cuidado. A equipe do boas vindas e a querida Alê Rocha (pessoa linda, de voz doce, personalidade forte, coração enorme e que praticamente nasceu para a fotografia junto com o nascimento da Maria Cecília), registrando tudo de maneira sensível, silenciosa e respeitosa.


Aproximadamente 20 min depois, mais uma dorzinha e nasce placenta. Agora sim, era o fim do trabalho de parto.

Logo depois fomos para o nosso quarto. Maria Cecília todo o tempo no meu colo e com o cordão ligado a placenta. O cordão foi cortado pelo pai após a primeira hora de vida. Após o corte do cordão, ela foi examinada ao meu lado, na nossa cama. Apgar 10. Eu a vesti pela primeira vez e a entreguei para o pai, que foi o segundo colo que ela conheceu.

Maria Cecília nasceu cercada de amor e respeito. No seu lar. E com ela nos braços, tendo esse inicio de vida tão lindo, tão cheio de calor humano e respeito, eu entendi plenamente que valeu a pena todo o caminho percorrido. Valeu toda a busca por informação, todo o emponderamento, a coragem de romper com o sistema, abandonar o plano de saúde, ir contra a grande massa e parir de forma totalmente natural e respeitosa.





Gratidão a todos que fizeram parte desse caminho junto comigo, com Luiz Felipe e com Maria Cecília. A cada membro da linda equipe que nos assistiu. A minha doula, por nos tirar da nossa zona de conforto e nos impulsionar a buscar informações baseadas em evidências para nortear nossas escolhas. A cada membro do grupo de apoio Ishtar (unidade Tijuca e Copacabana), por toda informação, troca, relatos e energia boa.

A incrível rede de apoio #sabemos parir, que de forma virtual e real foram e são uma grande fonte de troca e inspiração. Mulheres guerreiras que me ensinaram o significado real de empatia e sororidade. E um agradecimento especial ao meu pai, minha irmã, e meus amigos Raphael Carrijo, Fernanda Aguiar e Daiane Medeiros, por guardarem nosso segredo do parto domiciliar e por cada gesto e palavra de apoio.

E a todas as mulheres que lerem minha história, uma frase: Você pode! Nós podemos! Ao contrario do que a sociadede nos faz acreditar, nos sabemos parir e gostamos de parir!


Fotos: Alê Rocha Fotogragia.

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