Relato de nascimento - parto natural domiciliar após 2 cesáreas (VBA2C) da Marcela e do Bento


Meu VBA2C domiciliar. A história de um parto.

Terça, 8 de março, 06:30hs. Fui acordada com uma dorzinha leve e chatinha na barriga. Pródomos, pensei eu, sem dar mta importância. Naquele momento eu não imaginava q seria aquele o grande dia da minha vida.

Desde menina eu sonho ser mãe. E parir. Me lembro bem pequena já brincando de colocar uma boneca embaixo da blusa e fazer "força de novela"(rs). A maternidade sempre foi meu sonho maior, aquilo q norteou minhas escolhas na vida.

2007 - 25 anos. Depois de meses de planejamento e um pré natal com uma médica do plano de saúde q "fazia" parto normal, nasce na Perinatal Laranjeiras minha primeira filha, Malu. Depois de algumas horas em um trabalho de parto super tranquilo, fui levada a uma cesariana absolutamente desnecessária. Ñ havia nada de errado comigo ou com minha bb, somente mil intervenções precoces e a falta de vontade e paciência da equipe em esperar, madrugada a dentro, o parto evoluir. Ouvi algumas besteiras do tipo "vc ñ sabe fazer a força certa." Malu, nasceu às 22hs, a vi por alguns segundos e depois só fui ver minha filha na manhã seguinte depois de mto implorar q trouxessem minha filha pra mim. Ao ver a filmagem do seu nascimento, anos depois, ela disse pra mim: "Mãe, pq me tiraram tão rápido de perto de vc? Eu era tão pequena, olha, eu estava chorando, pq me pegaram assim? Vc ñ viu q eu estava assustada? Pq vc ñ me ajudou? Pq vc ñ ficou comigo? " Chorei... profunda e dolorosamente chorei. Durante mto tempo arrumei desculpas q me ajudassem a digerir aquele "quase parto". Aquelas intervenções desnecessárias com o recém nascido. Aquela maneira fria e mecânica de receber um bb saudável no mundo. Aquela dolorosa separação logo ao nascer. Minha filha ñ gostou do q viu. Ela chorava e tremia mto ao nascer. Achou triste. Nunca mais vimos o vídeo.

2009 - 27 anos. Nascia a melhor amiga da Malu, Nina. Dessa vez na Perinatal Barra. Dessa vez de uma cesárea já avisada. Dessa vez ñ tive apoio nem para tentar. Corri em tds os médicos do plano. Cesárea anterior. A desculpa q até o ministério da saúde já desmentiu, mas... Eles ñ querem perder tempo e dinheiro(o q o plano paga ñ vale a pena. Ouvi isso do próprio médico) num parto normal. Ela ñ querem. Eles ñ gostam. E mtos nem sabem fazer com excelência. Falta bagagem. Dica: ñ se preocupem só com enxoval. Mulheres, estudem os seus corpos!!! Quem ñ lê, tem q acreditar em tudo o que diz os que leram. Informação é poder!!! Enfim, ñ me organizei para pagar uma equipe humanizada. Ñ tive apoio em casa. Ñ tive força pra fazer valer meu querer. Coisa bem típica dessa época. Ñ tinha força. Achava q ia ser feliz vivendo pra agradar. Ñ era dona de mim. E eu q sempre sonhei com dois filhos, sabia q era o fim. Dessa vez, terminava ali meu sonho de parir. Acabou. Acabou? Rs. Eu sequer imaginava as voltas que minha vida ainda iria dar... E foi justamente qdo eu me conformei com o fim, q Deus me mostrou q era apenas o começo. Ele foi desconstruindo tudo que fiz, para que pudesse concretizar o querer Dele. E vieram as boas novas. Vida nova. Amor antigo. Recomeços. Melhores sonhos renascidos. Eu mal podia acreditar...

2014 - 32 anos. Terceira gravidez. Ele torcia por um menino, eu por uma menina. Amo ser mãe de meninas! E Bella veio! Amada, sonhada, festejada. Com ela, a esperança de finalmente parir. Dessa vez eu ñ mediria esforços para q isso acontecesse. Agora usaria meu plano de saúde só para exames do pré natal. Na hora de parir eu abandonaria tudo. Nada de maternidades "luxos". Luxo pra mim agora era me deixar SER. E eu seria. Mãe. Da maneira mais natural possível. Aquela para qual o corpo da mulher foi perfeitamente criado. Eu vou parir. Eu me planejei com antecedência. Agora seria tudo humanizado: equipe, parto, marido(rs)! Agora vai! Eu tinha um parceiro, amigo, q me apoiava e q embarcou de cabeça comigo. Fez do meu sonho de parir o seu próprio sonho. O filho q sonhamos há mtos anos, o filho do meu primeiro namorado, meu primeiro amor, o filho q sonhei desde os 15 anos. O mundo tem essa mania de girar gostoso e o melhor estava ali, acontecendo bem diante dos meus olhos.

Nossa menina chegaria ao mundo da maneira mais segura e linda q existe, porém, como é de costume na nossa história, nossos planos são só nossos planos. E os de Deus às vezes dolorosamente incompreensíveis. Bella se foi. Deus chamou nossa menina para ser um anjinho Dele antes mesmo q eu pudesse conhecer seu rostinho. Perdi nossa primeira filha... o q era festa virou luto. Móveis, enxoval, Tdo ficou e ela se foi... Uma ferida enorme se abriu. Foi devastador. Me permiti viver o luto até q estivesse pronta para tentar novamente. Mas sabia q a partir desse dia, eu poderia ter mais dez filhos, aquele pedacinho vazio sempre estaria ali. A Bella será sempre a Bella, tá tatuada na pele e no coração e nada nem ninguém conseguirá suprir a dor da ausência dela dentro de mim. Hoje aceito e agradeço. Há um propósito nisso tudo. Deus me deu. Deus me tirou. Louvado seja sempre. Resiliência.

2015- 33 anos. Deus nos deu nossa segunda chance. Nosso "segundo sol" crescia forte e saudável dentro de mim. E olha quem estava vindo dessa vez: Bento! O menino do pai. Diego ñ cabia em si de alegria. Abre parênteses (desde sempre qdo namorávamos e planejávamos filho, Bento sempre foi o nome combinado. O nome de menina nunca tínhamos decidido c antecedência. Ele sempre falava em menino. Nosso filho seria menino, ele tinha certeza. No fim das contas ele estava certo!) Estava vindo o garotão dos sonhos dele. Malu, a irmã mais velha pirou de alegria, "finalmente alguém pra jogar futebol comigo."

Dessa vez já tínhamos tudo decidido. Contactamos a mesma equipe humanizada, enfermeiras obstétricas, doula e fotógrafa da época da Bella. Elas q já tinham virado grandes queridas e comemoraram junto conosco nossa nova chance.

Fiz o pré natal com a GO do meu plano só para fazer os exames e, paralelamente, fazia o pré natal particular com a equipe do parto humanizado. Minha gravidez transcorreu sem o menor problema, graças a Deus. Curtimos bastante aquele momento.

Enqto Bento crescia na barriga, nós frequentávamos as reuniões do Ishtar, assistíamos vídeos de parto, líamos artigos, nos informávamos, eu, meu marido e minhas meninas. 6 e 8 anos. Sim, eu procurei conversar mto com elas a gravidez toda. Coloquei elas ativamente no nosso processo. Para que quando chegasse o dia do parto, elas estivessem seguras do q estava acontecendo e ñ se assustassem. Super funcionou.

Tivemos a benção da aprovação de nossas famílias. Nossas mães (q já haviam parido de parto normal), pai, irmãos, cunhados. Todos ñ só apoiaram como vibravam com a ideia. O que, com certeza, contribuiu muito para q eu pudesse estar em paz na hora de parir.

Todos os nossos familiares foram maravilhosos, mesmo os q se declaravam "cesaristas" de carteirinha, em momento algum desrespeitaram nossa escolha ou nos criticaram, pelo contrário, sei q houve muuuita torcida e oração. Eles são os melhores!!!

Quando cheguei nas 36 semanas, a GO do meu plano começou a passar aqueles exames q ñ fazem parte do protocolo da OMS para gestantes de baixo risco. Eu já sabia q isso aconteceria. É a hora q os GO's de plano de saúde começam a procurar "pêlo em ovo" para justificar uma cesárea "super necessária". Era a hora das circulares de cordão, bebês enormes, falta de dilatação... e toda gama de desculpas q não possuem respaldo científico nenhum. Tenho muita gratidão pelo excelente pré natal q passei com ela, por toda competência clínica q ela tem(fera!) e pelo carinho tb, mas era hora de dizer Adeus. E o fiz, com mta dó, porém sem me despedir. Pq mesmo nos informando sobre tudo, na reta final dá um frio na barriga e eu ñ queria q nada abalasse meu psicológico e minhas decisões. Eu sabia o que queria! Dali pra frente, continuaria meu pré natal só com a equipe que faria meu parto.

Decidi trabalhar até q meu corpo desse os primeiros sinais de trabalho de parto, mas as 36 semanas, antes do carnaval, fui fazer uma ultrassonografia comum e a surpresa: Bento, q já estava cefálico há semanas, virou. Estava pélvico!!!

A médica da ultrassonografia me perguntou:

"vc quer parto normal?" - Sim "Pode esquecer, seu bebê está sentado. Vai ter q ser cesárea." - Bebês pélvicos tb nascem. "Ela fez uma cara de 'duvido' e me recomendou levar o exame pra minha GO."

Naquele momento, no canto da sala, meu marido rezava pra q eu me calasse e ñ iniciasse ali uma aula sobre partos e evidências científicas pra ela, já q eu tinha "sangue nozóio" qdo se tratava do assunto. Rs.

Mas as orações dele deram certo, apenas acenei com a cabeça, fiz cara de alface e disse q assim o faria. Estava mais preocupada com como seriam nossos planos dali pra frente, do q em debater fisiologia do parto com alguém.

E aí veio o desespero, o choro, as lágrimas. Drama Queen, sou dessas! (Rs) Um bebê sentado. Meus planos de parir e ñ me separar das minhas filhas tinham ido por água abaixo. Tê-las junto a mim foi o principal motivo da minha escolha por um parto domiciliar. Compartilhar com elas o processo amoroso de parir o irmão era algo q eu queria muito. Porém um bebê sentado cancelava meus planos. Ñ q bebês pélvicos sejam indicação de cesárea, ñ são. Apenas bebês transversos (na horizontal) durante o trabalho de parto, são real indicação de cesárea. Bebês verticalizados nascem perfeitamente de parto normal, mas aí já ñ pode ser domiciliar, a prudência pede que seja no ambiente hospitalar e minha equipe além de experiente, só trabalha de maneira prudente. Outra dica: escolham uma equipe experiente e com referências fortes. As minhas eram e isso nos deixava mto tranquilos.

Dias antes do parto, elas pediram q todos os familiares (nossas mães e irmãos) escrevessem em um papel suas dúvidas sobre o processo e fizeram uma reunião com eles para esclarecer todas elas. Família inteira empoderada! Todos saíram seguros, tranquilos e ainda mais animados pro grande dia!

Viajei no carnaval e ficava dando cambalhota, plantando bananeira, mergulhando bastante na piscina na esperança dele virar. O ambiente aquático torna a pressão do corpo mais leve e relaxado e estimula o bb a dar cambalhota. Funcionou com algumas mulheres, comigo ñ. Voltei e e ele ainda estava sentado.

Nesse momento, eu entendi verdadeiramente o significado de uma doula. Naquele instante onde, em lágrimas, eu pensei em desistir. Eu estava exausta. Meu Deus, depois de vencer todos os obstáculos q o país mais cesarista do mundo nos impõe, eu ñ precisava de mais essa. Que inveja q senti das mães q optam por uma cesárea. Tão mais fácil. Foi aí q minha doula acolheu meus medos, minha fraqueza e passou a guerrear por mim.

Eu estava perto da linha de chegada, mas minhas forças estavam acabando, ela me pegou no colo e me ajudou a dar os últimos passos. Foi minha psicóloga, auxiliadora e minha melhor amiga. Começou a fazer todos os contatos da sua rede de apoio e a nos indicar todos os caminhos possíveis a partir dali.

Se o Bento ñ desvirasse, teríamos que fazer o parto hospitalar com equipe médica humanizada particular. Essa hipótese estava completamente fora do meu orçamento, mas eu sabia q era minha última chance de parir.

Mas antes disso, iríamos tentar tudo para ajudar o Bento a dar uma cambalhota. A primeira opção foi acupuntura. Lá fomos nós. Marido sempre comigo. Fizemos duas sessões daquelas "macumbinhas" lá. Kkkk Fumacinhas. Moxa. Agulhinhas. Nada! Mas rendeu boas risadas.

Nossa próxima alternativa seria tentar uma VCE(versão cefálica externa), um procedimento q o médico vira o bb na barriga com as mãos. Ñ é qq obstetra que sabe fazer isso, num país onde nem parto normal direito eles sabem fazer, era de se esperar... São poucos os q fazem, tem q ser fera e graças a Deus minha doula é amiga de um desses. Dr. Marcos Nakamura gentilmente me recebeu, deu uma olhada no Bento pela ultrassonografia e tentou a manobra. Mas o Bento estava com o pé já mto lá embaixo, meio q preso, a manobra ñ deu certo. Percebi no olhar dele a decepção. Ele queria mto me ajudar. Agradeci e saí arrasada do hospital.

Cheguei em casa desanimada, chorando mto (normaaaal kkk) e disse por meu Marido q desistia. Lembra do talento pra drama? Então... Kkkk. Ia pro hospital fazer uma cesárea mesmo, eu disse. Ele me abraçou e me disse q eu estava louca e q de jeito nenhum ele ia me deixar desistir agora, q eu ñ me arriscaria em cirurgia nenhuma sem ter necessidade real, q meu corpo era perfeito e ia conseguir parir. E ainda seria ele, a amparar nosso filho em sua chegada. Esse cara otimista...

Minha doula disse q haviam exercícios q poderíamos fazer para ajudar a soltar o quadril e os ligamentos laterais q sustentam o útero, dando assim mais espaço para o Bento virar. Foi assim q fui gentilmente atendida e acolhida pela Enfermeira Obstétrica Maíra Soligo lá na "A Nossa Casa", um canto mágico e maravilhoso no centro do RJ q apoia mulheres q anseiam pelo PN. Lá ela ensinou a mim e ao meu marido, os exercícios q teríamos (sim, pq eu precisava de ajuda pra realizá-los) q fazer religiosamente várias vezes por dia, durante alguns dias. E assim fizemos. Era cansativo demais, mas eu estava determinada.

Nessa saga, estava eu um dia na fila do banco, aquele lugar preferido dos desconhecidos q gostam de puxar assunto (se vc tiver uma barriga de grávida então, eles se sentem qse na obrigação! Rsrs), uma senhorinha linda me disse uma coisa q me deixou encucada:

"Minha filha, bb sentado é pq está esperando alguma coisa. Seu filho está esperando alguma coisa de você."

Pqp! Que porrada tomei na cara! Meu filho estava esperando alguma coisa de mim e eu sabia exatamente o que era.

Escrevi uma carta pra ele. Foi a coisa mais difícil e mais libertadora q eu podia ter feito por nós dois. Mal comecei a escrever e desabei a chorar, corri pro chuveiro. Único lugar do mundo q uma mãe de já duas crianças têm um pouco mais de privacidade. Rs.

Eu precisava me desculpar. Por medo de perdê-lo a qq momento, eu mal falei com ele durante a gravidez. Eu ñ queria me apegar e sofrer ao vê-lo partir, como aconteceu com a Bella. Eu mantive distância pq na minha cabeça, a qq momento ele poderia morrer. E a perda da irmã dele ainda doía mto dentro de mim. Evitei vínculo o tempo todo. Várias vezes tentei cantar pra ele, mas ñ conseguia passar do segundo ou terceiro verso. Travava. E foi ali, naquele dia, q consegui finalmente escancarar meus sentimentos para ele. Sem mentiras, sem meias palavras e sem medo:

Filho, me perdoa por mal ter falado com vc a gravidez toda. Eu curti a barriga por fora, tirei mil fotos, mas ñ falei com vc. Ñ me aproximei de verdade, ñ contei histórias, ñ cantei pra vc como fazia com as suas irmãs (e vc pode nem acreditar, mas te livrei de uma. Mamãe canta mal à beça), mas me perdoa, eu tinha tanto medo... E ainda tenho.

Me perdoa por todas as vezes na vida q eu disse q ñ queria ser mãe de menino. Q nasci pra ser mãe de menina. Me perdoa por ter chorado muito quando eu descobri q era um menino. O que eu vou fazer com Power Rangers? Dinossauros? Um piruzinho pra limpar? (Rs).

Eu queria sua irmã de volta, achava q se fosse uma menina, seria a Bella voltando do céu pra mim e sararia essa ferida enorme do peito da mamãe. Eu te prometo q vou deixar sua irmã ir em paz e vou te receber de braços e coração aberto por aqui. Ela será seu anjo da guarda.

Me perdoa filho, por todas as vezes q eu disse q ñ sabia ser mãe de menino. Eu continuo ñ sabendo, mas eu te prometo q vou aprender. Até hj acho q ñ sei ser mãe nem das suas irmãs, kkkk, mas eu sigo tentando aprender. Então vc me perdoa meu amor? Me perdoa e pode desvirar, pode vir, mamãe te garante q tem amor de sobra aqui pra vc. Eu preciso de você, pode nascer, vc é meu parceiro nessa e nós vamos começar nossa história trabalhando juntos em equipe. Pode vir, meu amor! Se vc quiser continuar sentado, se de alguma maneira precisar fazer cesárea, eu farei. O importante é ter vc bem e saudável comigo. Fica à vontade pra realizar o seu querer. Te amar e te respeitar é minha missão. Vou te receber com a mesma alegria e com mto amor! Seja como for, vem meu filho. E perdoa! Perdoa a mamãe... Te AMO!

38 semanas e depois de vários dias praticando os exercícios, o Dr Nakamura me chamou para tentar mais uma vez a VCE. A essa altura, eu já tinha pedido licença maternidade no trabalho. Precisava focar no objetivo. Esses dias seriam decisivos pra mim.

Cheguei no hospital, obviamente, desanimada e pessimista. Rsrsrs. Ñ tinha dado certo uma vez, pq daria agora? Óh céus! Óh azar! Rs. E obviamente meu marido era só otimismo. Esse bom humor dele às vezes me irrita! Rs. Mas como eu preciso dele...

Tudo de novo, Dr Nakamura olhava o Bento pela ultra enquanto sua gentil esposa Bruna segurava minha mão, me fazia carinho e me dizia q ia dar tudo certo. Ela havia lido o relato da minha saga no desabafo q fiz no grupo de apoio q temos no fb. Estava lá para torcer por mim. Mto querida!

Foi constatada na ultra q Bento continuava sentado, mas havia mudado o dorso de lado. Antes a direita, agora a esquerda. O q para o Dr era uma posição melhor para a VCE. O pé dele q estava preso lá embaixo na bacia, tb já ñ estava mais. Ou seja, os exercícios realmente ajudaram a soltar ele na minha barriga.

"Vamos tentar" disse o médico. E em menos de 40 segundos estava feito! A cambalhota mais esperada das últimas duas semanas aconteceu!!! Dr Nakamura com muita competência foi direcionando o Bento e ele foi virando tranquila e suavemente na barriga. O que eu senti? Nada. O procedimento ñ dói, é apenas aquela sensação normal do bebê se mexendo na barriga.

E com a maior calma do mundo, ele passou o aparelho de ultra e disse: "virou!". Naquele momento eu desabei, foi choro de felicidade, alegria, gratidão. Eu agradecia sem parar ao médico. Diego vibrava! Minha vontade era gritar, pular, abraçar todo mundo. A equipe tb não ficou atrás. No hospital, acho q eram médicas residentes, tb vibraram mto comigo. Eu via nos olhos delas a animação em ver uma mulher lutando para parir após duas cesáreas. Estava cercada de gente q acreditava nisso. Q rede de apoio linda! Exercício + VCE + profissionais realmente comprometidos com nascimentos seguros e respeitosos. Uma fórmula de sucesso! Mais um obstáculo vencido a caminho do meu sonho. E mais meia dúzia de anjos q passaram pelo meu caminho pra me ajudar a chegar lá.

Comemoração geral! Era hora de retomar meus planos. Agora era esperar a hora dele. Meu parto domiciliar! Minhas filhas perto de mim! Exames lindos. Saúde perfeita. Bento encaixado. Estávamos prontos!

Agora era só esperar meu corpo funcionar. Ahh mas pq ñ pegar uma última paranoia pra criar? Pq sou dessas!(rs) Se vejo uma paranoia ali sozinha, carente, adoto logo. Alimento com ração super premium, dou carinho, carrego comigo. Kkkkk. E foi assim q comecei a criar uma nova categoria de Noia:

E se eu ñ entrasse em trabalho de parto? E se eu tivesse q ir pro hospital induzir? Ai q droga, meu parto domiciliar iria por água abaixo de novo...

Meu marido e minha doula ali, os budas master da paciência. Com facão na mão cortando cada matagal q eu colocava no caminho: "você vai entrar em trabalho de parto, relaxa."

A doula mandou desencanar e namorar o marido q isso ajuda a acelerar o trabalho de parto. É cada missão "difícil" q dão pra gente, mas "nóis é" forte! O q ñ fazemos por um parto normal né? Kkkkk

39, 40 semanas... Nada! Noia já era uma menina linda e crescida desde aquele dia q a adotei. Uma super companheira das minhas madrugadas insones. As pessoas ao redor já me perguntavam "kd simininu?" "Nasce ñ?" E eu gentilmente dizia q ele estava no forno, só mais 5 minutinhos "pra dourar". Confesso q ficou mto Inbox e WhatsApp ignorado pelo caminho. Sorry people! Eu estava procurando ficar o menos ansiosa possível e ficar lendo me causava mta pressão. Isso pq eu menti a data heim? Joguei o nascimento dele pro final de março qdo o certo era no início. Mesmo assim as pessoas estavam mto ansiosas. Extremamente compreensível. Meu filho já era mto amado e tenho uma torcida boa!

40 semanas e 5 dias, domingo a noite. Me deu uma inquietude e desandei a arrumar tudo dentro de casa. Só teve uma coisa q eu desarrumei: a mala da maternidade. Eu ñ queria ir pra maternidade. Desarrumei a mala q é pro destino ñ entender errado. Arrumei a casa. Arrumei as coisas de Bento, q por sinal eu ñ comprei qse nada. Ganhei tudo. Enxoval foi a última coisa q me preocupei dessa vez. A gente fica tão mais prática com a experiência... Enfim, casa limpa. Fui dormir pensando "Pq mesmo eu havia entrado de licença tão cedo?" Ficar em casa esperando era uma agonia só.

Segunda feira, acordei entediada e inquieta. Reclamei com meu marido, ele me propôs ir trabalhar com ele aquele dia. Ele tinha umas audiências lá pros lados de Bangú (no verão? Fresquinho!), Sta Cruz... e quer saber? Ah, eu fui. Me arrumei e fiquei de motorista dele o dia todo. A essa altura eu já era um mamute, mal andava. Me arrastava por aí. Lá fui eu dirigindo e andando pra cima e pra baixo de fórum em fórum no gélido verão carioca.

Cheguei em casa e antes de dormir, marido: " e aí? Tá sentindo alguma coisa?" Nada!

Terça, 8 de março de 2016, 07:30. Estava na cama já fazia uma hora. Mexendo no celular pra distrair enqto contava. 5 contrações até ali. Uma a cada 12 minutos. Ñ era trabalho de parto ainda, mas já era algum sinal, meu corpo começava a preparar a festa. Outra. Dessa vez me pegou no susto e eu pulei na cama. Marido acordou e me olhou com aquela cara de esperança.

"Contração?" É. "Quantas?" Seis até agora.

Levantamos. Enquanto ajeitávamos o café, elas iam e vinham. Ainda mto levinhas e espaçadas. Mas vinham. Diego inquieto andava pra cima e pra baixo, me olhava toda hora e o sorriso dele estava do tamanho do mundo. Mas ainda ñ era nada, as contrações ñ tinham ritmo, podiam ser só os pródomos, podia ser só meu corpo treinando. O parto podia demorar alguns dias ainda pra engrenar.

Muito a contra gosto Diego foi pro escritório. Queria ficar em casa comigo, mas eu expulsei ele. Nada disso. Ñ estou em tp ainda. São pródomos. Pode ir trabalhar. Qq coisa eu aviso.

9:30 - elas estavam aumentando a frequência. Cólicas leeeeves q vinham como uma onda e iam embora. Como estavam vindo várias, eu avisei a equipe pelo nosso grupo do WhatsApp. Elas me disseram q eu precisava começar a monitorar o tempo e a duração das contrações pelo aplicativo, mas a parte da manhã é super complicada e corrida pra mim por conta das meninas q tem q se arrumar, almoçar e ir pra escola. Hora de chamar reforço.

Liguei pra minha mãe q mora ao lado e expliquei. Ñ estou em trabalho de parto ainda, ñ se empolga, mas preciso de ajuda pra monitorar as contrações. Vem, mas sem alarde, ñ qro q ninguém saiba ainda. Ela chegou rápido e assumiu as meninas pra mim. Fui pro meu qto. A equipe falava comigo no whats o tempo todo. Mandei o primeiro relatório das contrações. Ok. Irregulares.

9:50- estavam ficando mais chatinhas. Nada demais em termos de dor, mas eu estava ficando meio aérea. Fiquei um tempão com a escova de dente na mão pq esquecia o q eu estava indo fazer. Nunca fumei um back, mas acho q deve dar essa mesma "onda". Kkkk

Outra. Dessa vez, para tudo, era mais dolorida. Outra. E outra. E outra. A essa altura eu ñ estava mais conseguindo usar o aplicativo. Tb parei de bater papo no grupo, q estava movimentado com a equipe conversando, passei a conseguir digitar somente a hora das contrações:

10:00

10:05

10:09

10:12

10:18

10:22

Ai caramba. Essa doeu

Gente, tá doendo...

Ai

Ai

Aaaaaiiii

Foi quando as EO's começaram a falar entre elas e eu só lia.

- Paolla, vc pode ir olhar?

- Estou a caminho

Fotógrafa: ôpa, estou indo também!

Doula: estou qse chegando já

Eu: ñ gente, como assim? Ñ vem ñ. Ñ estou em tp. Ñ tá na hora ainda.

Kkkkk quem estava assustada levanta a mão? \o/ Como assim? Estava na hora?

Meu Deus! Estava todo mundo vindo. Di, me chamou no whats: amor, está todo mundo indo! Estou indo pra casa tb!

Tá Di, vem mas pelo amor de Deus ñ conta pra ninguém. E como ele divide o escritório com minha madrinha(e sogra) e meu cunhado, inventou q ia no banco rapidinho e saiu.

Em poucos 30 minutos meu quarto estava cheio e eu ainda meio sem acreditar. Ali sentada na bola de pilates, tentando achar uma posição melhor a cada contração. Elas vinham e eu me sentia me afogando sem saber onde enfiava as mãos. Kkk

Di chegou animadíssimo, me deu um beijo e os olhos dele já estavam marejados. O sorriso era de orelha a orelha. Sempre.

A parteira (enfermeira obstétrica) monitorando os batimentos cardíacos do Bento, disse: tudo normal, mas ele ainda está alto na barriga. Como as contrações deram uma espaçada agora e estão muito irregulares, nós vamos embora e voltaremos no final da tarde. Elas devem engrenar mais pra noite. Então ñ veste a "camisa" do trabalho de parto ainda e segue a vida normal. Vamos ver se vai ou ñ engrenar.

Abre parentêses: comprei dois hobbys lindos pra colocar qdo entrasse em trabalho de parto. Disse q prenderia o cabelo pra ñ molhar.

Expectativa: queria estar linda na filmagem, na foto, parir lindamente feito aquelas divas parideiras lindas q vejo por aí.

Realidade: nas primeiras contrações, estava eu lá na bola, toda zen, a equipe ainda ñ tinha ido embora, tava ali me olhando sei lá pq, qdo de repente vem uma contração mais doídazinha e o q q a "diva" aqui fez? Corri pro chuveiro, sentei no box e me molhei de roupa e tudo. Kkkk Era uma vez cabelos divos, era uma vez glamour. Hobby? Achei ele outro dia desses na gaveta, intacto! Kkkkk

A água morna do chuveiro era uma benção. Aliviava muito aquelas colicazinhas agudas, sim pq até então apesar de chatinhas, era só isso. Mas de alguma forma, o ambiente do banheiro estava me incomodando. Estava me sentindo sufocada lá dentro. Tentava sair do chuveiro, qdo estava saindo vinha outra contração e eu voltava correndo. Fiz isso sei lá quantas vezes. Foi qdo lembrei q estava pelada e gritei pro marido trazer um top e uma calcinha de biquine pra mim. Afinal de contas, sei lá pq as meninas ñ tinham ido embora ainda. Estavam lá, nos monitorando.

Consegui sair do banheiro, me enrolei numa toalha qualquer( glamour o q é isso?) e fui pro quarto das crianças, a essa altura, por via das dúvidas, as meninas tb ñ iam mais pra escola. Di saiu pra comprar sorvete e nutella pra mim. Porque se eu ia morrer de dor, pelo menos q fosse com dignidade.

Ali na cama, minhas filhas deitavam ao meu lado e me faziam carinho, me davam beijinhos. Elas estavam super animadas. Alguém me sugeriu q eu fosse andar um pouco no quintal. Andar, se mexer, dançar, tdo isso ajuda a acelerar o trabalho de parto. E eu tinha mesmo planejado fazer isso tudo. Fui então pro quintal, comi umas acerolas do pé, mas quem disse q eu conseguia andar? Dançar? Kkkk nem pensar, qdo as contrações vinham meu corpo me fazia ajoelhar ou agachar. Sim, nosso corpo q manda a posição q vamos ficar, eu ñ tinha controle sobre isso. É instintivo. Involuntário.

Foi qdo vi a minha piscina no quintal, nem pedi pra ninguém, entrei de uma vez. A água ali ñ era morna, mas era na água q eu me sentia bem. Sei lá pq. Malu e Nina qdo viram q entrei na piscina, correram no qto pra colocar o maiô delas e se jogaram lá tb. Ali dentro, elas seguravam minha mão, me abraçavam, me davam mais carinhos e beijinhos. Malu me fazia massagem nas costas. Qdo a dor vinha mais chatinha, Nina pedia pra eu ficar calma e respirar fundo. Malu dizia " Mamãe se sentir vontade de gritar, grita. Isso alivia a dor." E assim, eu tinha as melhores doulas do mundo comigo!

Lembro de em algum momento desses, minha mãe chegar perto de mim com um sorriso e dizer: caramba filha, que coisa mais tranquila e gostosa isso de parir em casa né?

Era mesmo. Marido entrou na piscina também e de repente meu mundo todo de amor estava ali. Nós 4, juntos, esperando nosso novo amor chegar. Mas peraí... Elas falaram q iam embora. Q ñ era trabalho de parto ainda. Foi qdo eu virei e perguntei:

-Gente, vcs ñ iam embora? Já devem ser meio dia e vcs nem almoçaram ainda.

"Marcela, são 15:30."

-15:30? Meu Deus, o tempo voou e eu ñ vi! Ué, então eu estou em trabalho de parto? Já posso vestir a camisa? Rs.

E foi qdo elas me disseram q sim. Q ao chegarem aqui Bento ainda estava alto na barriga. Elas iam embora, mas meia hora depois, o coração dele já batia lá embaixo, ele ñ foi descendo pouco a pouco, ele escorregou de uma vez só. Ainda ñ estava na fase ativa, estava na latente ainda, mas estava evoluindo muito rápido.

Di me contou q se eu continuasse evoluindo naquele ritmo, Bento deveria nascer por volta das 18hs.

Nesse momento ñ me aguentei, chorei de alegria. Meu Deus! Meu corpo estava funcionando! Ele estava vindo! Meu menino vai nascer! Pedi ao Di que avisasse a mãe dele e minha cunhada. Podiam vir. As avós e a tia tb assistiriam o nascimento dele. Eu sabia q seria um momento ímpar na vida delas e acho q elas mereciam viver isso tb.

Ao ir ao banheiro sentir algo escorregar, olhei, era meu tampão mucoso. As meninas adoraram ver. E comemoraram. Saiu o tampão do útero! Está aberta a temporada de nascimento! Rs.

A piscina do parto já estava cheia lá no quarto das crianças e a Marcella(minha xará parteira) me convidou a entrar. Que delícia aquela aguinha morninha. Minha dinda e minha cunhada chegaram. Ter todas elas por perto era mto tranquilizador, eu podia sentir a energia de paz, proteção e amor ao meu redor. Passado algum tempo Marcella pediu pra eu sair da piscina. A água estava me fazendo relaxar demais e as contrações voltaram a espaçar. Quando saí da piscina é que a brincadeira começou a esquentar de verdade, as dores começaram a vir pra valer.

Fui pra banqueta de parto no meu quarto e as dores já ñ me deixavam conversar. Vinham de 3 em 3 minutos. Finalmente estava em trabalho de parto ativo. Até aí tinha sido tudo suportável, mas a partir disso meu lado animal entrou em ação. E ñ romantizem a ideia de parto, apesar de ser o evento com a maior intensidade de amor que já vivi, o parto nu e cru, como já havia ouvido a Maíra falar, ñ tem nada de romântico.

"Não haviam harpas tocando, luzes multicoloridas emanando dos céus, perfume de rosas, rios de leite e dúzias de doulas virgens a abanar e entoar cânticos. Foi intenso, corporal, animal, a maioria dos partos é sangue, suor, lágrimas, cocô, medo, força, gritos. E mesmo assim é incrível. E lindo. E é incrivelmente lindo POR ISSO e não APESAR DISSO."

Ñ teve glamour, ñ divei, ñ me preocupei. Eu senti a ocitocina percorrer cada centímetro do meu corpo. E me permiti. Sentia meu corpo funcionar, minha natureza agir. Tdo q eu tanto sonhei estava acontecendo. A cada contração eu sabia q era uma a menos, eu sabia que meu filho estava vindo, eu queria estar ali.

As dores ficaram muito intensas e eu corri pro chuveiro. Eu morria de medo da dor. Bobagem... Dói, dói sim, dói muuuito, mas é uma dor diferente. E ñ, ñ parecem 22 ossos quebrando. Li isso uma vez, hj acho exagero. Ñ é uma dor de quem está com uma doença e está achando q algo está errado. Nem por um minuto eu achei que fosse morrer. Ñ é dor de morte, é dor de VIDA! Era meu filho, cara! Mto louco! Meu amor estava chegando. Eu ñ estava doente, estava no auge da minha saúde. Era meu corpo funcionando perfeitamente, abrindo para me dar mais amor. Era a nossa hora Bento, a minha e a sua. Era dor de amor! Uma dor boa. De vida nova.

O que mais me deixou angustiada no meu parto ñ foi necessariamente a dor, foi o tempo. Ou melhor, foi ñ saber quanto tempo. Foi ñ ter controle dele. Eu só queria saber qto tempo exatamente. 2 horas mais? 10? Eu queria saber qdo seria ao certo o fim. Meu medo era virar a madrugada e sentir aquela dor... até quando? Era a pergunta q eu fazia a Marcellinha, mas ela como sempre, ñ me respondia. Só balançava a cabeça com o famoso gesto "ñ sei... Pode ser agora. Pode ser amanhã... Pde ser."

Que raiva dela! Mas ela estava certa. Foi então q percebi q aquela previsão q o Diego me contou, me deixou ansiosa. Ñ ia nascer 18hs? Droga, me liguei nisso e buguei por um tempo. Gosto de tudo programado e adoro coisas bem definidas, eu queria o controle, queria ter domínio do tempo, mas esqueci q parir é perder o controle. A única coisa q a Marcella me dizia era mais ou menos assim: "Vc e o Bento estão ótimos. Está tudo certo. Vcs estão indo bem

Nós havíamos acordado q o parto domiciliar só aconteceria enqto estivéssemos indo 100%. Se algo fugisse 0,1 da curva de normalidade, iríamos pro hospital, mesmo q fosse pra continuar o parto normal por lá. As pessoas pensam q parto domiciliar de hj é como o de antigamente. Uma senhorinha da comunidade fazia os partos da região apenas com a sabedoria popular dela. Ñ, hj em dia parto domiciliar, tão estimulado e apoiado pelos países q possuem as mais baixas taxas de mortalidade materno e neo natal do mundo, é algo feito por profissionais especializados e autorizados por lei a executá-lo. Tinha balão de oxigênio e toda uma gama de materiais e aparelhos q eles trazem. São especialistas em lidar com situações adversas, primeiro atendimento se necessário até a chegada do hospital. Tínhamos um plano de parto. Conversamos sobre o q faríamos caso alguma dessas coisas q tinham 1 ou 2% de chance(mínimo né? Mas os números são esses sim.) de dar errado. Tínhamos plano B, C. Eu tinha um hospital back up a 10 minutos de casa. Enfim, ñ é necessário coragem e sim responsabilidade. Isso minha equipe tinha e eu tinha plena confiança nos cuidados q estavam sendo dispensados a nós.

As dores continuavam mto fortes. Eu ñ havia conseguido comer nada o dia inteiro pq as contrações me davam náuseas e eu ñ queria vomitar. Debaixo do box mesmo eu pedi meu chocolate. Comi um pouquinho.

"Marcela, vamos sair do chuveiro? Vc entrou aí e as contrações ficaram curtas."

Curtas?! Curtas pra quem cara pálida?! Só se for pra ela. Esbravejei. Eu já estava urrando. Isso animou a equipe, segundo eles, é sinal q já está bem perto de nascer. Começava a fase q a galera apelida de "a hora da covardia".

Apesar da dor intensa, eu em momento algum pedi para ir fazer uma cesárea ou que me dessem anestesia. É bem comum isso acontecer e a equipe ter q lembrar a mulher q isso ñ estava nos planos dela. Mas eu estava tão focada e o sonho era tão grande q eu ñ pensei em desistir. Sabia q por mais q eu reclamasse, aquilo era o sonho de toda uma vida.

A equipe expulsou as mulheres lá de casa. Só o marido ficou. Eu ia começar a caminhar pela casa. Fui para banqueta de parto na sala. Já estava me sentindo cansada. E entre uma contração e outra eu dormia. Toda vez q eu lia isso eu pensava: "como pode uma mulher dormir 3 minutos? Ah isso é mentira, eu demoro tanto pra conseguir pegar no sono." Mas é verdade, nosso corpo é sábio e parece q nos "apaga" pra gente conseguir ir tendo forças. Vinha a contração, eu acordava e urrava. Acabava, eu cochilava de roncar. Tudo q eu queria de vdd era parar tudo, dormir duas horas e depois acordar e continuar. Kkkk sonho meu...

Pedi pra minha xará fazer um toque, eu queria mto saber como estava indo, a bolsa ainda ñ havia rompido e isso me deixava ansiosa demais. Ela sugeriu q eu mesma me tocasse e foi o q fiz. Quando coloquei o dedo, senti lá no fundo a cabecinha dele. Me animei, ela nem tanto. Pelo tanto de dedo q entrou ele ainda estava alto. Como saiu um pouco de sangue no meu dedo, ela imaginou q talvez meu canal estivesse fazendo um edema e inchando(só soube disso depois), daí q ela resolveu fazer um toque. 9cm de dilatação e canal mole q nem manteiga. Excelente! Nada de edema. Só q Bento na hora q escorregou rápido de manhã, não encaixou a cabeça com a face pra baixo e sim meio de lado. Problema nenhum, isso apenas poderia fazer o trabalho de parto demorar um pouco mais. Ela me sugeriu q fizéssemos alguns exercícios para ajudar a soltar a bacia para estimular ele se encaixar melhor e agilizar. Vale lembrar q durante todo parto ele estava sendo monitorado e nem por um segundo o coração dele rateou. Batimentos cardíacos excelentes! Tb vale lembrar q qdo entrei em TP ativo fiquei q nem bicho e qdo a Marcella queria auscutar o Bento, eu quase mordia ela de raiva. Ela tinha q fazer altos malabarismos para chegar até minha barriga pq eu ñ colaborava. Foi malaê, Marcellinha! Rsrs.

E foi nessa hora q a dor ficou alucinante. Vocalizar não adiantava mais e eu gritava mesmo. Pq a cada contração, eu ñ podia ficar na posição mais confortável e sim na posição dos exercícios. Foi no sofá, na cama e depois de novo na banqueta do quarto.

Já eram mais de 8:30hs e eu já estava conformada em virar a madrugada contraindo. Eu fazia força e mais força e a bolsa sequer havia rompido. Seja como for, eu sabia q eu ia aguentar, mesmo q em algum momento eu tenha dito q ñ ia aguentar, eu sabia q ia. Tanta mulher aguenta. E era aquilo q eu queria. COMO eu queria... muito! Lembro de ter pensado q aquele tipo de parto é só pra quem quer mto mesmo. Deve ser horrível ser obrigada a passar por esse processo sem querer. Tão horrível qto ser submetida a uma cesariana sem vontade. E essa frustração eu conhecia bem. Fiquei ali na banqueta empurrando a cada contração. Ñ sei dizer ao certo se eu empurrava pq tinha vontade involuntária, pq era assim q doía menos ou se pra fazer a bolsa romper e acelerar. Mas era isso q fazia lógica pra mim e era o q eu fazia. Qdo às 21hs a Marcella se aproximou e disse:

"Marcela, presta atenção. Se você quiser mesmo q ele nasça na piscina, temos q ir pra lá agora."

Ué? Já?

"Sim. Ele está aí."

Como assim?(eu ñ conseguia acreditar)

"Bota a mão"

Foi quando fui tentar colocar o dedo e ele simplesmente ñ entrou um milímetro. Ele estava ali e eu nem senti ele descer! Eu estava cansada, mas encontrei forças e fui pra piscina. Pedi pra chamar minhas filhas. Diego estava indo qdo a Marcella disse pra ir rápido q podia ñ dar tempo. Gritei pra ele voltar, não queria parir sozinha. Outra pessoa vai chamar por favor. Engraçado... a maioria dos relatos q eu lia as mulheres diziam q a uma certa hora elas entram na "partolândia", um estado meio de alfa onde elas já ñ lembram mais de mta coisa depois. Eu ñ me senti assim, estive bem consciente e racional durante todo o parto.

Enquanto eu estava tendo as últimas contrações no quarto, minhas filhas, mãe, sogra e cunhada esperavam na sala. Minha mãe disse q Malu já estava emocionada e pediu pra todos orarem com ela. Fizeram uma roda de oração. Todos de mãos dadas rezavam Pai Nossos e Ave Marias. Malu e Nina rezavam bem alto e mamãe disse q era tão bonito q os adultos abaixaram a voz e deixaram somente as vozes delas ecoar. Como eu gostaria de ter visto essa cena...

O Bento já começava a coroar então elas foram todas para o quarto. Enqto nossas mães ficaram olhando da porta, minhas filhas observavam da beira da piscina. Nina sempre discreta e observadora, sorria com os olhos e Malu apesar de calada para respeitar o momento, era visivelmente explosão de emoção.

De repente as dores cessaram. A contração vinha mas eu simplesmente ñ sentia mais dor nenhuma. Nenhuma!!! Imaginei q essa seria a hora q eu sentiria mais dor. Sair um bb pela perereca parecia algo meio assustador. Como podia sair? Rsrs. Mas ñ! Apesar de estar fazendo uma força animal. Urrando. Dor dor mesmo ñ tinha mais. Apenas essa vontade looouca de empurrar. Olhei pra Marcella e vi no olhar dela tranquilidade. Fiquei calma também. Diego q sempre falou q queria ser o primeiro a pegar o Bento, se posicionou bem de frente pra mim na piscina. Segurou minhas pernas.

Quando veio outra contração eu empurrei, ñ senti dor mas senti arder lá embaixo. Parei de empurrar antes da contração terminar. Sabe qdo vc rala o joelho e depois lava com água e sabão? Foi essa ardência q senti. Outra contração e eu novamente empurrei. Ai tá ardendo! Tá ardendo! Tá ardendo! Tá ardendo! E parei de novo de empurrar com medo da ardência. Era o "círculo de fogo" q eu tanto ouvia falar. Nessa hora Diego falou:

- amor, ele é cabeludo! - Como vc sabe? - Qdo vc fez força agora ele apareceu - Mas a bolsa ainda ñ rompeeeu! - Amor, a bolsa é transparente!

Alguém da equipe disse q bebês nascem empelicados (é qdo os bebês nascem dentro da bolsa sem estourar. Bolsa íntegra. São nascimentos raros e mto bonitos)

Eu me senti abençoada por Deus e naquele momento eu decidi acabar logo com aquilo. Eu queria meu filho. Se esse troço vai arder, vai arder de uma vez só pq eu vou empurrar com toooda força da próxima vez. Mais uma. Segurei bem forte nas mãos da minha doula q estava atrás de mim servindo de apoio e fiz uma foooorça que nem eu sabia q tinha. Empurrei atéeee qto pude. De repente olhei pra porta e vi nossas mães chorando, as meninas eufóricas, o Diego emocionado, a equipe sorrindo. Alguém disse q ele estava ali. Onde? Alguém me disse:

- A cabeça dele já saiu. Pode tocar!

Meu Deus... Ñ sei explicar a emoção q senti ali naquele momento. Eu toquei a cabeça do meu filho. Já tinha saído toda. Ele estava ali. Eu estava trazendo meu filho ao mundo. Nosso filho! Nosso sonho! Vivo! Lindo! Nosso! Tão perto de ser real. Empelicado. Ele ainda estava na bolsa. Falta pouco, muito pouco. Naquele momento eu já não sentia ardência, já ñ sentia mais nada além de AMOR! Fui ocitocinada ao milésimo grau. Eu era só amor! Eu era tanto amor q eu achava q ñ ia suportar. Eu me lembro de ter começado a agradecer dali mesmo:

- Obrigada Jesus! Obrigada Pai! Vem filho, vem meu filho! Eu te amo! Eu te amo! Obrigada Pai! Meu filho!

Ele estava ali, o filho q eu ainda ñ tive. O filho que gerei por 2 anos. Minhas lágrimas eram de alegria. O tempo da espera acabou. Morria a dor, nascia o riso.

Mais uma força. Ele ñ saiu. Aproveitei o intervalo pra descansar. Na próxima ele ia sair. Eu queria meu filho, eu queria acabar logo com aquilo. Meu expulsivo foi rápido, gritado e intenso. De alguma forma eu sentia q tinha q ser assim. Outra contração e eu senti o corpo dele escorregando lentamente, foi somente aí q a bolsa rompeu e nosso sonho foi direto para as mãos do Diego. Antes q ele o tirasse da água a Marcella rapidinho enfiou a mão na água e retirou a bolsa q ficou sobre o rosto dele. Meu marido o tirou da água e ele saiu já com os olhos abertos, calminho, piscando, olhando tudo... Deu um suspiro grande e começou calmamente a respirar como se já soubesse como fazer. Ñ chorou, mas em compensação... O pai dele estava aos prantos. Meu marido chorava q nem criança e entregou nosso filho pra mim. Eu mal conseguia acreditar no que tinha acontecido:

-Amor, eu consegui! Eu consegui! Mãe, eu consegui. Conseguimos filho, olha o q fizemos meu amor... Que trabalho tivemos juntos. Gente, eu ñ acredito, eu pari! Olha ele aqui, eu pari!!!

Nossas mães, minha cunhada, o qto todo emoção. Ali, a luz de velas, Deus restaurou nosso sonho.

Tomei meus filhos nos braços. Cherei ele. Beijei ele. Conversei com ele. Olhei pra trás e vi Malu aos prantos chorando de alegria e dizendo:

"Conseguimos mamãe! Conseguimos! Meu irmãozinho nasceu! Meu irmãozinho!" E ela chorava... só nós duas sabemos qtas lágrimas já havíamos chorado juntas, abraçadas, dias e dias. Ela sentiu profundamente a perda da irmã. Chorou minha dor, chorei a dela. Ñ foram poucas as vezes q choramos juntas. Sempre dizíamos uma a outra q um dia choraríamos juntas de novo, de alegria. E nosso dia chegou!

Lembro de por instinto ter colocado logo o Bento no meu seio para mamar. Ainda na água, com poucos minutos de nascido e já mamando. O cordão umbilical ainda pulsava. A placenta ainda estava dentro de mim. Ele pegou de primeira e mamou perfeitamente. Parecia q já tínhamos feito isso juntos outras vezes . Enqto eu e meu marido ali juntinhos admirávamos ele mamar, a equipe pediu pra q todos nós deixassem sozinhos. Foi qdo minha caçula disse:

" Porque a placenta ainda precisa nascer. Eu sei."

Rimos todos. Uma mini ativista. Uma criancinha empoderada. Mais entendida de fisiologia de parto q mto marmanjo. Kkk. Elas aprenderam direitinho. Era isso. Um parto só acaba qdo a placenta sai e pra isso eu precisava continuar num ambiente calmo e tranquilo.

Enqto eu esperava ela sair, ouvia os gritos, gargalhadas e brindes do meu pai, cunhado e nossas mães lá na casa da minha mãe. Que festa! Que alegria!

De repente um cólica bem leve e a placenta nasceu. Sem dor. Aliás, dor é uma coisa q eu já ñ sentia mais desde q ele saiu. Zero dor! Que mágica! Q delícia a sensação de ter um filho e ñ ter um ponto pelo corpo. Nenhuma dor. Levantei da piscina e fui pra minha cama. Ficamos ali, ele, eu e meu marido, nos curtindo. Depois de algum tempo quis tomar um banho. Levantei, tomei banho, lavei meus cabelos, coloquei uma camisola limpa e voltei pro quarto. Somente aí foram pesar, medir e fazer os testes no Bento. 41 semanas. 50cm. 3.760kg. Bebezão. Apgar 9/10. Nascido às 21:59hs. 3 horas de trabaho de parto ATIVO (latente, ou seja, contrações sem ritmo, fiquei 12hs). As irmãzinhas cortaram o cordão umbilical(elas adoram contar isso pra tdo mundo) e logo depois meu pai, cunhado e todos vieram conhecer ele de pertinho. Aí foi aquela emoção! Todos felizes, se abraçando, podendo curtir o neto/sobrinho de pertinho e ñ através de um vidro de longe como é na maternidade. Todos mto emocionados, ficamos ali um pouco sentados na minha cama, rindo, conversando.

Depois q todos foram embora, eu ainda estava meio sem conseguir acreditar no q havia acontecido.

Qq forma de se ter um filho é emocionante, eu sei disso, já estive nas duas situações, mas ser protagonista dessa chegada, ao invés de ficar deitada esperando alguém te cortar e tirar o bb pra vc, desculpa, mas pra mim foi algo q só alguns palavrões podem definir!!!!! Foi do cara***!!! Incrível, indescritível, maravilhoso, milagroso!

A maior e mais intensa experiência de AMOR q já vivi na vida. Uma força de amor até então desconhecida. Um processo fisiológico tão perfeito e lindo quanto Deus. Parir é o mais alto grau de perfeição da obra de Deus!

E ñ, ñ dá pra comparar se vc ñ viveu, só vivendo para saber! Sentir! Falar! É como o amor de mãe, sabe? A gente imagina... mas desconhece a profundidade até vivenciá-lo. E eu precisava viver isso. Exatamente como foi.

Eu pari tantas coisas naquele dia... Naquela força ñ tinha dor. Naqueles gritos ñ tinham sofrimento. Era tudo um processo perfeito de cura. Saiu bem mais que um bb. Enqto ele nascia, várias dores morriam no grito, no suor, no urro, no sangue. Parir me ressuscitou! Me devolvi para mim. Me redimi comigo das vezes que sucumbi a covardia e deixei q outros decidissem por mim. Parir me reconectou com a menina q um dia fui e fez ela se orgulhar da mulher q nos tornamos. Retomei meu corpo. Minhas vontades. Parir, foi a última etapa de um resgate de mim mesma.

Que dia lindo! 8 de março de 2016. E no dia Internacional da Mulher eu ganhei meu melhor presente.

A Deus, meu marido, meus filhos, familiares e a toda equipe q topou conosco participar da luta q é parir de maneira natural, humanizada e respeitosa no Brasil, sou inteira, inteira gratidão!



Fotos por Ana Kacurin Fotografia.

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